O verdadeiro problema do WhatsApp

Que o brasileiro é um dos povos que mais passa tempo na internet e que mais usa redes sociais todo mundo já imaginava. Que o brasileiro tem um certo “dom para estragar” o uso dessas plataformas digitais também é um fato recorrente, vide exemplos como as declarações de Mark Zuckerberg sobre o comportamento dos brasileiros no Facebook, ou o caso do ator de Everybody hate Chris e suas constantes reclamações sobre o comportamento dos brasileiros na rede social. Além da zueira tupiniquim já consagrada, a reapropriação do uso das mídias sociais digitais é um fator a ser destacado. Atualmente é improvável uma empresa brasileira que não disponibiliza um “contato por Whatsapp”. Independente dessa prática ser mundialmente comum ou não, muito antes do lançamento do WhatsApp business – focado em empresas no início de 2018 – os empreendedores nacionais exploravam a ferramenta de envio de mensagens e suas funcionalidades já em 2016.

Agora com os escândalos das fake news exponencializados durante as eleições 2018 é que se começa a discutir um problema que pode ser ainda mais grave do que imaginamos. Eu mesmo fui surpreendido durante o processo eleitoral com uma mensagem privada de um político fazendo campanha no WhatsApp. Obviamente era número desconhecido (com DDD de São Paulo), contudo o perfil contava com uma foto atual do candidato e me enviou um vídeo intitulado “Para mães indecisas”. Sabemos que nosso número de telefone celular não é um “segredo de estado”, e, independente do erro de critério ao me classificar como “mãe”, preocupa saber que esse tipo de abordagem pode ser feita e é quase impossível de ser rastreada.

O diário El País, na matéria “WhatsApp, uma arma eleitoral sem lei“, focou no possível verdadeiro problema da plataforma, algo que vai além de campanhas em processos eleitorais: a falta de controle do que é distribuído nesta rede. O fato das mensagens serem criptografadas faz com que ninguém tenha ingerência sobre o que circula nesse ambiente, a rede é inviolável, como seus próprios criadores rede alegaram.

Alguém conhece alguma outra rede criptografa e inviolável? Já ouviu falar da Dark/Deep Web? Ela é conhecida como a rede obscura na internet, onde TODOS os tipos de conteúdos imagináveis e são irrastreáveis. De difícil acesso, é preciso ter profundos conhecimentos de programação e informática para acessar os níveis mais profundos dessa rede, onde é possível comprar itens ilegais ou acessar conteúdos proibidos como pornografia infantil (o  episódio “Abuso” do seriado Rede Sombria no Netflix mostra um pouco desse universo).

O WhatsApp tem se aproximado muito do funcionamento da Deep Web. Ao explorar alguns de seus grupos públicos durante 2 semanas foi possível observar a circulação e disseminação de conteúdos um tanto quanto contraditórios ou ilegais. Nesse curto período o que mais me chamou a atenção foram as constantes mensagens de usuários (não sei dizer se reais/confiáveis ou não) oferecendo documentos, certificados, diplomas, cédulas de dinheiro e cartões de crédito falso.

Se essas ofertas são verdadeiras ou não pouco importa, a grande questão é que o WhatsApp está se tornando uma rede complexa, com um emaranhado de usuários e grupos, onde conforme seu crescimento, fica cada vez mais difícil controlar esse ambiente. Aliado a isso, ele é uma plataforma de fácil utilização e acesso, onde diferente da Deep Web é algo mais amigável para ser explorado. Se o WhatsApp vai ou não mesmo se transformar em uma rede potencial para a circulação de “ilegalidades” não temos como saber. Mas é bom abrir o olho e começar a acompanhar de perto esse processo.

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